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Obesidade como sintoma

A Organização Mundial da Saúde considera a obesidade uma doença multifatorial que engloba não só dimensões biológicas, mas também, questões sociais, culturais e/ou emocionais. Ela pode se manifestar em qualquer faixa etária, qualquer classe econômica ou qualquer gênero. Contudo, nosso núcleo, através de um olhar diferenciado, por via de regra se pergunta: o que este excesso de peso está tentando nos comunicar? 

Nosso entendimento sobre a obesidade e a compulsão alimentar se constrói não só a partir da ótica da psicanálise, mas também se alicerça nas exigências da contemporaneidade do gozo imediato. Partimos, então, do conceito de pulsão e de oralidade para construirmos uma articulação entre corpo e mente. Desta forma, conseguimos abarcar o sintoma físico, no caso, o excesso de peso, e associá-lo ao emocional, pois é a pulsão, buscando a satisfação a qualquer custo, que faz o eixo entre o psíquico e o somático.  Portanto, pode se levantar a hipótese de que os quilos a mais possam significar um sintoma psíquico sendo manifestado através do físico.

É importante poder pensar na obesidade a partir de um viés simbólico que reside na relação que o sujeito tem com a alimentação desde os primórdios, tanto sociais quanto pessoais da história de cada um. A obesidade como sintoma tem seu enlace ancorado nas relações primitivas, em um tempo em que ainda não havia a palavra, quando imperava uma pulsão a ser explorada e conduzida. Esse sintoma leva a pessoa a traduzir com o corpo aquilo que não pode ser dito, aquilo que não tem significado e, em consequência, não tem palavra. O desespero fica desenhado no corpo pela incapacidade de simbolizar, de pensar, de sentir e de falar o que nele é expresso. Por vezes, o sobrepeso poderá ser uma defesa, uma dissociação, a fim de proteger emocionalmente o paciente, ou um grito de socorro que precisa ser transcrito, acolhido e simbolizado.

Buscamos entender aquilo que é colocado no corpo que, por meio dos registros e das marcas deixadas na história do paciente, representam erroneamente o prazer e que podem gerar sofrimento, sensação de estar em um labirinto sem fim, de ter fracassado, de não se encaixar em si mesmo e/ou no mundo externo. Os processos psíquicos são singulares e devemos procurar entender junto com cada paciente o motivo da escolha de tal sintoma, pois de forma inconsciente, esta escolha lhe é útil.

“Nem como muito, não sei por que engordo!” é uma frase muito comum entre aqueles pacientes obesos ou com sobrepeso que procuram atendimento psicoterápico. O sofrimento é visível, mas impensável já que a busca por conforto é feita por meio da comida e não através do pensamento e da elaboração.  Aceitar seus sentimentos, colocar sentido onde não há, pode aliviar o sintoma e, consequentemente, melhorar a relação do indivíduo com seu próprio corpo que passará a expressar mais saúde ao invés de ser o alvo do ataque ou da destruição de si mesmo. O entendimento da obesidade como sintoma torna possível vermos que a pessoa obesa está tentando expressar algo que ainda não é possível ser dito verbalmente ou que talvez ainda nem tenha sido percebido ou entendido pelo paciente.

A técnica usada especificamente por nosso núcleo de atendimento para investigar o que está oculto neste excesso de peso trazido pelo paciente é a psicoterapia breve. Porém, cada caso é um caso. Pode ser que a gordura esteja a serviço de evidenciar-se, de ser visto, de chamar atenção para algo que não está bem, entretanto, para outra pessoa, pode estar a serviço de esconder de forma que a pessoa não seja vista, de ficar coberta pela gordura e assim não se sentir exposta. Os motivos são ímpares, mas entender a obesidade como sintoma nos permite pensar na causa inconsciente desta condição e na consequente possível mudança terapêutica, focando não somente em uma transformação do comportamento.

Em síntese, o Núcleo de Compulsão Alimentar e Obesidade busca compreender o paciente, por meio do olhar psicanalítico, de como se estabelece a relação do indivíduo com a alimentação. Considera a pessoa como um ser único, que se vê diante desafios diários, que sofre com a forma como é visto, como cuida de si mesmo ou não, assim como identifica as sensações que o comer propicia. Através de sessões de psicoterapia breve, procura-se auxiliar cada pessoa a identificar o que acontece quando come, quais os sentimentos que envolvem este ato e os significados que foram sendo construídos ao longo da vida do paciente através de suas lembranças na tentativa de ressignificar vivências e possíveis traumas em relação à alimentação.

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